sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

High Hopes’






Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio.
Não compreendo como querer o outro 
possa pintar como saída de nossa 'solidão' fatal. 
Mentira: compreendo, sim. 
Mesmo consciente de que nasci sozinha do útero de minha mãe, 
berrando de pavor para o mundo insano, 
e que embarcarei sozinha 
num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. 
O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem. 
Mesmo sabendo disso, eu, você, eles, todos, exigimos o eterno do perecível, loucos. 
Amar é loucura, loucura eterna, limitada ou não.












terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Olhe só.

Já sei que prefere me ler feliz.
Se bem que acho inviável. Já olhou pela janela?
Mas posso mentir se isto provocar alívio.
Tudo bem pra mim.
Porém, felicidade palpável mesmo, só aqui dentro.
Na minha poltrona preta, rodeada dos meus livros,
meus desenhos e meu silêncio.
O pó gelado de manhã impregna a casa toda.
Fuligem de caminhão, carro e ônibus que sobem me visitar na sacada,pelo segundo andar.
E entram sem bater, loucas pra me ver.
Por isso decidi, vou comprar uma bicicleta e farei uma longa viagem.
Respirar outros ares.
Suar frio vendo outra paisagem que não as paredes do quarto.
Quero sorrir observando outras flores.
Eu adoro as do supermercado, mas elas são quase mortas.
Quero coisas vivas. Quero viver bem com minhas verdades.
Sentir o vento no rosto e que ele seque minhas lágrimas.
Quero cheiro de mato. De chuva. Terra molhada.
Quero um campo inteiro só pra mim.
Minha bicicleta e eu. Mais nada.
Vou ver se consigo sonhar algo pra nós.
Enquanto meu cabelo se mexe na velocidade do pedal.
Vou me impor limites.
Quero sabores novos e longos períodos de descanso.
Sei que sou capaz. Só não sou agora.
Não quero agora.
Mas fica tranqüila, te fiz um texto feliz.
Sabendo que tudo se cura com hipoglós, merthiolate,
sonrisal e algumas palavras doces.
Doce. Um bom filme. Bons amigos e chá!
Agora sorria, afinal fiz um esforço enorme ignorando-me por dentro.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Herésie

Eu gosto de escrever cartas. Longas cartas.
Escrever uma carta é um exercício da memória,
em que normalmente tudo o que é de bom aparece,
porque nos recusamos a perder tempo escrevendo tudo o que é de mau - pra isso, existe o telefone.
A persistência da memória é uma coisa útil, porque sempre nos cutuca quando andamos pela rua;
quando estamos preparando às pressas o café-com-leite de manhã e ao lermos o jornal.
Eu aprecio cada dia mais o amanhecer,isso sim!
Porque é outono e esta é uma das minhas estações prediletas - perdendo só para a primavera,
mas as duas não precisam brigar: gosto de ambas porque o céu é sempre mais azul,
as manhãs mais frias e as noites mais acolhedoras.
Quase sempre uso papel, mas cada vez menos.
Porque as pessoas não têm a menor noção do que seja uma carta.
Não é o tempo perdido de sentar e escrever à mão, dedos doídos pela caneta,
a letra meio torta pelo costume do computador.
É o tempo ganho pensando em alguém, lembrando de alguém, perguntando por alguém.
E, como as pessoas não entendem, elas respondem por e-mail.
Ou, pior, perguntam por que não usamos o MSN.
Heresia.



quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Exausta.

Não fala mais a palavra CANSADA
desde que sua amiga Adri ensinou
que se não falar não cansa.
Não fala mas pensa na proibida palavra.
O tempo inteiro.
Pensa no formato que ela tem.
Letra por letra
C-A-N-S-A-D-A.
Que chega a dançar frente aos olhos dela.
E quando vai chegando o fim do dia
a palavra parece invadir a ponta de sua língua
Segura.
Flutua em seus pensamentos.
Mas ela não fala.
Não faz som de cansada.
E se cansa de sensurar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Chega de falar de coisas felizes, porque a verdade é que Gio não sabe onde colocar suas mágoas.

Passo os dias pensando onde colocar tanta mágoa.
Tamanha a minha decepção com a vida.
Onde deixo meus maus pensamentos se não no desenho, no desejo, no pesadelo?
Não sei o que fazer com meu desgosto.
Meu osso.
Rui um zumbido ruim no meu ouvido que desce e dá um nó na garganta.
Meu ponto fraco.

E onde foi que você colocou nossa mágoa naquela manhã?
Por que a levou para passear no parque?
Para tomar sol.
Para lamber sorvete de morango.
Para contemplar uma lagoa falsa com peixes famintos por fandangos.
Como se atreve fingir que ela não lhe dói?
Não sei o que faço com as más lembranças que por
hora insistem em me mostrar o quão vivas estão.
Me rasgando por dentro.
Invadindo-me.
Doendo.
Me deixando de cama com o despertador tocando às sete.
Remoendo cada palavra, cada argumento,
cada gesto que faço força para esquecer.

Maldita memória.
Devo fugir de mim mesma?
Da minha história?
Preciso.
De um remédio. Uma droga. Um médico.
Uma porra qualquer.
Preciso de ajuda?

Mamãe disse que as coisas ruins a gente esquece.
- Apenas as boas ficam. São palavras dela.
Não acredito.
Talvez a pressa me faça descrente.
Mas minha mãe não mente.
Alivia.
E faz assim desde que sou menina.
Para eu não desistir de sobreviver.
Maquiando-me para não desmaiar.
Para eu pensar que nasci pra vencer,
pra ganhar, pra amar,
pra ser tão feliz quanto os outros parecem ser.

Não é que eu seja infeliz.
Não. Não é isso.
Absolutamente.
É que ultimamente, minhas mágoas não me têm deixado dormir.
E eu, as aceito, completamente.
Porque este é um tormento só meu e de mais ninguém!

Com os olhos bem atentos,
observo as más mágoas do lado direito do
meu travesseiro a noite toda.
Para que nenhum detalhe me escape.
Então, alguém aí, tem alguma idéia?

Sei que todo mundo passa na vida
por momentos difíceis.
E que não dá para avaliar o quanto o outro sofreu,
se foi mais ou menos.
Mas observar o sofrimento alheio nunca
me assegurou tranqüilidade, mesmo que tardia.

Sei também que nessas fases a gente aprende
algumas coisas sobre o nosso próprio comportamento,
que amadurecemos.
E que depois da tempestade,
vem à chuva fina, o chuvisco, a ventania, o céu nublado
e só então o esperado sol aparece.
Ufa! Finalmente.
Mas este blá, blá, blá não me comove nem locomove.
Porque a verdade é que eu não sei onde colocar
minhas mágoas queridas.

Também já pensei que talvez
eu não queira me desfazer delas.
Mas esta é uma hipótese que eu jamais vou admitir.
Afinal, socialmente isso seria um escândalo!
Já posso ler a manchete do dia:
“Garota amarelada e de boa aparência não quer se desfazer de suas mágoas”.

Colecionando cicatrizes.
Catalogando coisas tristes.
A melancolia me inspira.
Matéria-prima.
Assim, em mim seu tiro pegou de raspão.
E se era para ferir profundamente...
Saiu pela culatra.
Mostrou-me a força e a determinação necessária
e um coração trabalhando a mil por hora.
É por esta razão que chego ao fim de mais um '2000'
com um enorme desejo de colocar
todas as minhas mágoas na estante da sala.
Bem pertinho do ‘piano’.
E toda vez que você tocar ali uma canção,
vou me lembrar que tudo aquilo,
já esteve dentro de mim.
Pode ser que eu ainda chore algumas vezes.
Pode ser que eu me arrependa.
Mas de qualquer forma, prefiro aprender a
conviver com minhas próprias dores a esquecê-las para sempre.
E o prazer, ao meu futuro pertence.
Afinal, amanhã é outro dia.

Alguém aí tem algo a dizer?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Delícia

Acho uma delícia não ter que
explicar que preciso de cuidados.
De alguns.
Como todos.
Como os outros.

Delícia, acho.
Quando você chega.
E quando parte, quase que me ao meio.
Delícia te esperar de forma tranqüila
alienando dentro do meu quarto.
Fazer receitas que sei que adoraria o cheiro.
Inventar temperos. Bolos. Bolsos.
Vestidos pra você me ver ao vivo.
Desejos traçados em finas linhas pretas.
Colorindo.

Delícia é sentir ainda um téco de você no travesseiro.
Ao deitar, percebo os privilégios de quem recebe a visita.
Seu agasalho no meu cabide.
Seus olhos no banheiro.
Sua música no meu piano.
No nosso.
Estou achando tudo uma delícia...

domingo, 29 de novembro de 2009

Vara de Família.

É bem provável que ela seja processada por desabafo.
Numa família em que os advogados falam mais alto,
berram e desenvolvem seus próprios códigos de conduta.
Suas leis são únicas, mas só valem aos outros.
Suas manias são absolvidas, assim como a falta de trato, de tato e amor.
O perdão não é aqui ou lá concebido, ''advogados não erram jamais''.
Então, não haverá o que perdoar. Mas quero ver me calar.
Quero ver me processar por desabafo. Quero ficar cara a cara, frente ao juízo.
E me defender de você. Pois, tenho aqui dentro de mim um peito cheio de mágoas.
Não vou fingir como os demais. Pelo contrário, vou me abrir.
Publicar-me toda. Tuas crias, em mim perfurantes.
E presentes teus que não quero, nem nunca quis.
Não me compras nem te vendas assim.
Revogai-nos.

Tudo doce por aqui !

7 Carinhos:

sábado, 28 de novembro de 2009

É Zelo








Quando as pessoas se amam e querem se amar, selam um pacto: dormir juntos. 
E quando se fala 'dormir juntos', o sentido é duplo. 
A verdade é que mesmo quando dormem os amantes se amam.
Já dizia Ferrat: 'Durante o tempo que você quiser, dormiremos juntos.'
Penso que isso é um projeto de vida, ambíguo: dormir/amar juntos, dormir/ acordar juntos ou dormir/morrer de amor juntos. Amar é um projeto de vida e um projeto de morte. 
Quando o vento da insonia sopra, é a hora mais favoravel a se olhar o corpo que dorme ao seu lado.
Ver o outro dormir é negocio de muita responsabilidade, amar é ser guardião do sonho alheio. 
O poeta enquanto dorme trabalha, os amantes enquanto dormem, se amam.
Inconscientemente, um pé toca o pé do outro. 

Podem haver vários significados pra tão singelos gestos, 
ajude-me a atravessar esse meu sonho ou, venha sonhá-lo junto comigo. 
Certos sonhos, sobretudo os de quem se ama, não cabem em um corpo só. 
Transbordam os limites da noite, e pedem cumplicidade. 
Há pessoas que vivem 50 anos juntas, e não conhecem os sonhos um do outro. 
Porém, há quem passe uma tarde ao lado de alguém, e conheça seus sonhos pra sempre. 
Para ouvir o ruido dos sonhos, basta abrir os ouvidos na escuridão. 
O sonhos pulsam na madrugada. Quem ama diz boa noite, como quem fecha a porta de um jardim. 
Habita no sonho do outro, e deixa-se habitar.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Impublicável

Eu lhe escrevi naquela caixa de presente
que te amaria para sempre.
Já dizia, era birra.
Só.
Percebi.
Tarde demais para passar ilesa.
Meu “para sempre” não é até agosto.
Eu fingi.
Que poderia seguir incondicionalmente
enquanto você fazia seus planos solos na minha sala de estar.
Não consegui.
Ignorar que a falta de planejamento comigo machuca.


Mas eu quis viver contigo, todos estes dias.
Foram mais de 148 no total.
Acordar, fazer café, cuidar da nossa roupa limpa, o tênis sujo de lama.
Os cinemas, jantares, passeios longos a pé pelo centro.
Eu só quis agradar a você.
Ouvir uma música boa em sua companhia.
Agradar-me. Fotografar o melhor de nós.
Enquanto os outros diziam: “A gente não combina!”


Menti para mim mesma.
Desenhei um sonho comum.
Desejei você dizer que talvez também
pudesse me amar para além do 8.
Queria mesmo que fossemos infinitos.
Queria que tivéssemos nos dado a chance
de viver outra história.
Que escrevêssemos diferente.
Na sua língua. Na minha. Na nossa.
Que invertêssemos nosso avesso,
voltássemos ao começo e pensássemos no plural.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Teenage Meat.









Quando a gente é jovem acha tudo diferente, 
questiona as dúvidas mais imponentes,pensa que tudo é fácil, 
espera porque crê que as coisas um dia vão se ajeitar.
A gente insiste em ver a vida com outra ótica,
a gente acha que pode mudar o mundo.
Depois agente cai na rotina.
Quando a gente amadurece a gente não ri mais como antes, 
ficamos presos nesse loop constante.Descremos em mudar o mundo, 
e ainda achamos que os jovens que são loucos.
Quando a gente envelhece é que a gente vê, 
que era muito melhor ser louco do que deixar de sonhar.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Para sorrir com os olhos:



Semana.

Quando a saudade aperta.
Quando sente-se estranha
em meio aos mais íntimos.
Quando tem vontade de silêncio
e o piano toca desconcertado.
Quando sai para correr de todas as
verdades de dentro do peito.
E elas não saem. Ao contrário, acumulam.
Quando tudo deveria estar tranqüilo
e você simplesmente não consegue.
Quando sente-se incapaz.
Inseguro.
Quando a felicidade faz parte só
das histórias dos outros.
Quando a fome se perde.
As vontades fogem.
Quando seus olhos olham
e mentem descaradamente.
Quando você faz parte daquilo
que inventa para ser sua verdade.
Frágil.
Quando sua criatividade passa por cima da vida real.
Quando todos te apontam.
Relatam seus erros.
E você percebe que a vida não é um filme
nem um desenho. Quando já não existe desejo por nada.
Nem com o que há de se comer.
Quando você é o estranho no ninho.
O patinho feio.
O excluído.
Quando sai à procura de similares.
De derrotados.
É discutível.
Duvidoso.
Desconfiável.
Quando a fé desapega.
Quando as lágrimas tornam-se gigantes e pesadas.
Quando chove.
Ou o céu está nublado.
É assim.
Ainda bem que hoje fez sol.*

Á Duas pessoas que têm feito de um tudo pra desviar-me da rotina,
adocicando-me como podem:

Ronny Míh