domingo, 10 de julho de 2016

Se a vida for mesmo essa pressa que ao menos os poemas sejam vividos com calma.


Jean-Luc Godard, Band of Outsiders, 1964.


  
              I.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Alinhamento.




Quanto custa
a procura
da cosmogonia que rege
esse encaixe
explicando em minúcias
semelhanças
que nos afastam
ou
diferenças
que nos aproximam?    

Quando será fabricado
repelente próprio
para fantasmas românticos
que assombram corações descrentes?

Ando tão confusa
inverti nossa ordem
sem alterar resultados
desaprendi sonetos
antes favoritos.
                               
Pedi calma e passagem
ao fim das contas
na esquina
das coisas                              
que nos permanecem atravessadas  
quem nunca na vida
converteu o coração em pedra
que atire a primeira saudade.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Te confesso





Eu queria ir até aí te derramar palavra
molhar as tuas maçãs 
fazer de conta que é de lágrima
que se regam as incertezas
que é de carne e músculo
esse coração
que encostava no dela
até dias atrás
distraído
involuntariamente instável
pra amenizar
os ais secretos
e toda a falta de tato
deixar correr o tempo
bicho solto nos quintais
que é pra fazer de conta
pelo menos um dia
ou dois
que a gente tambem é livre
pra sentir o que quiser

e na hora de partir
que existe
como morte
que é certa mas sem previsão

não se partisse ao meio a menina

justamente porque
do alto do meu egoísmo
me jogaria
me ralaria
me cortaria
pra sarar
os joelhos dela

sopraria
dando tempo
ao tempo
sem dar ponto
métrica
vírgula


por isso e mais
queria ir até aí 
te vomitar enjôos 
que não são meus
te encher de bile os sapatos
pra 
quem sabe assim
talvez
(re)tirar reações jamais vistas
do teu universo de homem
bem vestido e sério
findar esperas 
que se tornaram minhas
sem querer.







domingo, 9 de fevereiro de 2014

Continuações variáveis do não entender.




O aborrecimento em estar viva, sem ter tido previsão ou convite  para vir até aqui, grita em todos os meus silêncios. Creio que desse aborrecimento, com o qual sou obrigada a conviver, só receberei sinais confusos. No pouco que tento descobrir me confundo, minha  intuição vazia de sentidos nunca foi de ajudar.

Com o peso dos dias ruins, na beira dos meus nervos, não há beijo que me cale, nem amor que me faça enternecer. Só o que resta é o egoísmo de saber ser e doer sem pausas.

O incômodo dará a entender ser a última aparição. Talvez me renda algumas páginas encharcadas do meu sal, muito provavelmente, nas situações inesperadas, vai me forçar a engolir o que sou e resolver, não  questionando ou alertando o eu sem gosto.

E continuarei provando insosa do cansaço
na agonia de caçar respostas.

Quantas vidas me serão impostas até enlouquecer?

terça-feira, 21 de maio de 2013

Fragmentando a carta de um amor inteiro.
















Acho interessante registrar o quanto me deixas intrigada com essa "espécie de filtro" que tens nos olhos. Sim, passei a chamar dessa forma mas nem comentei nada a respeito, até por previamente imaginar como seria tua reação diante do comentário. Revirarias os olhos e pedirias pra que eu não contestasse contigo, que parasse de proferir ofensas gratuitas à minha própria imagem, por ser a tua imagem predileta de mulher. 


Provavelmente irias formular uma outra teoria pra desbancar a minha, mas não importa, porque mesmo em desacordo existe amor entre nós, um amor tão antigo e confortável, com sensação térmica de roupa de estimação em dias de frio.

Dia desses pensei em agradecer por muito que tenho na vida, até pelo tanto que perdi, porque também acho que se deva agradecer por isso. Mas sabe o que é engraçado parar pra pensar? Que tem "obrigado" que é gigante e precisa logo ser colocado pra fora por não ter onde caber. Não parece que o agradecimento se torna ainda maior quando se trata de amor e seus derivados?

Acho que essa palavra amplia as coisas, até o meu tamanho diante do enfrentamento que significa se propor a amar e ser amado de volta por uma pessoa. Na minha cabeça, durante esses espaços de tempo, isso ficou vagando sem achar destino. Minha vontade se embaralhava junto de tantas outras possibilidades, se perdia. Talvez, inconscientemente, eu estivesse mesmo te esperando voltar, mesmo sem a garantia de varrer o pó dos dias que passei sem ti. 

Porque sozinha não sabia onde tinha largado minha disposição de entrega. Era como se eu só soubesse estar momentaneamente viva, presa a permanecer pela metade, no imóvel das coisas mortas de coragem.

Pois então, escrevi pra agradecer o retorno.
Teu paradeiro foi minha fuga desses labirintos.
Minha devolução.


sábado, 4 de maio de 2013

Os dias são todos nossos.

Teu nome já não é o de batismo.
Desde que me entendo por gente
se converteu em palavra curta
que passou de Amélia pra ti.
Transferindo amor e responsabilidades
ainda que, a princípio, não houvessem planos.

Tua vida foi criando a nossa,
liquidificando duras esperas
em amor com leite Ninho

pra fortalecer.

Não deixando nada a desejar
até porque
os cuidados foram e ainda são
tão maiores do que essa moderna proximidade distante
tipo coisa de gente grande que trabalha demais.

Poderia viver mil vidas
e acho que não conseguiria dissertar corretamente
sobre os eternos ''38 anos''
ou os panos da tua saia
que transformei em vestido
no último verão.

Comentei contigo,
que acho incrível quando perdes a fala
ou o jeito com que choras baixinho
nos fins dos filmes de animação?

Tua risada alta que tempo ruim não abafa,
devia tocar na rádio
pro mundo girar melhor
sem dor nas costas
por carregar silêncios.

Tem muito quatro de maio
fantasiado de dia qualquer
esperando.

Regando o que já foi plantado
pra ver flor-e-ser feliz.

Tu és a raiz de tudo
e eu vivo
a partir
de ti.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Endereçado assim.






Transcendo o físico com a perenidade dos gestos,
gastos ou pensados
seguem calculadamente leves e engatilhados
pra balear o esquecimento.


Venho sangrando as más lembranças nos últimos dez meses,
por falar em esquecer.
Escrevo menos, digo mais.
Te provo e comprovo que esgotei de ser eu
pra ser (re)feita de nós
fisgados
como o meu peito.


Como evitaria ser tua, nua e lúcida
ainda que me fosse opcional,
se são tuas as mãos que me folgam todo o peso de viver?


Quero muito e peço pouco,
pra começar bem devagar
a divagar a boca nas prisões feitas de carne.
Abrir poros até os ossos,
que sustentam o cativeiro do teu corpo.


Pra atravessar tuas esquinas
não foi preciso olhar pros lados,
já reservada a diretriz.


Sigo teus sinais
revestida da vida que me cabia,
desprendida de resistências ou objeções.
Depois de desencontros infiltrados e ironias a fio,
resgatei nosso começo
pra que existisse um meio
de riscar os fins.


Flerto os mesmos olhos castanhos que iluminam meus escuros.
abarrotados dos sonhos
que guardei em segurança.

Dilatados de vontades embaladas pra presente,
contendo formas renováveis
do mesmo amor
pra gente usar.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Saudade tem nome, endereço e telefone.


Para  Ronny, com imenso e genuíno amor.






''Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
Amar o perecível,
o nada,
o pó,
é sempre despedir-se.''

(Hilda Hilst)




''Os meses passaram e me levaram a poesia'', foi o que pensei por ter ficado tanto tempo estacionada nessa quase certeza, digo ''quase'' pelo pavor desse furto, do meu descuido em ser menos gente e mais verdade e por querer tanto que o quase desaparecesse logo e me deixasse de uma vez, só com as palavras na sala, soltas comigo pra ver o que podia acontecer. Digo ''quase'' por ter te escrito aquela  carta e chorado, desejado teu bem e um abraço que me fizesse lembrar.

O sal da despedida me trouxe o gosto da tua vida, sempre tão vizinha da minha, já se mudando daqui.  Saí do teu abraço pra me retornar e ter absoluta certeza de que não fui violada, talvez seja melhor afirmar que a poesia ficou adormecida nessa linha entre a sensibilidade das situações e a nossa dificuldade em (trans)passar por cada uma delas, na sutileza em recusar o novo ou em perceber que nossas pernas se esticam em passos opostos e, às vezes, impossíveis de acompanhar.

O fato de ter pegado nas tuas mãos de menina e ser compelida a soltá-las enquanto mulher, me dói até agora feito um papel que me corta as peles. Abri aspas na confusão, respirei fundo e escrevi pra esquecer das distâncias. Pinto sempre a gente na memória, só que hoje achei melhor fazer assim, pra (re)lembrar quão valiosos são os registros e a amplitude dos limites que a gente ainda pode desbancar.

Meu despreparo surge quase irreparável, intimidado pelas ausências, carente de aceitação. Pelo visto vou mesmo ter que me ajustar com a impossibilidade de encontros ocasionais, treinar a rotina sem incluir o ''te ver a qualquer hora na rua de trás'', mesmo sabendo que ainda vou passar várias vezes por lá, de olhos compridos, coração nas mãos e cabeça na lua, por não ter caído a ficha nessas condições.

Ser ciente da obrigação de ir e querer continuar no mesmo lugar, ter o corpo inteiro do lado de lá e, ainda assim, continuar pulsando o coração aqui. Das minhas inúmeras definições de saudade, nenhuma  cabe ou se aproxima da gente, talvez funcionem  no máximo como um aceno, perto dessa coisa sem nome ou reprise, que é o privilégio de se torturar com recordações por ter vivido tão bem.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Árida




Tenho certeza de que, nos intervalos entre um dia e outro, deixei meu texto adormecer. Coloquei em mim tão fundo, como quem baixa a guarda e dá permissão. O medo passa e rumina a vida, empurra o tempo e engole o mundo. Já não sobra nada, além de velar palavras, até que o peso da existência rompa o fio que a memória sustenta. Suspendi inconsciente todas as formas de expressão, num varal de ideias que tomei por secas, um corpo todo de palavras mortas, golpeadas pelo tempo.

Nunca soube digerir isso da forma mais sensata, tudo que passa por mim demora a ser processado, acho que meu coração mastiga muito devagar. Desde que me entendo, me desmistifico, dei pra reunir em mim todas as complicações do mundo, míope de beleza ou explicação. Queria estabelecer um ponto fixo pra alcançar,  sem ter que chegar no de interrogação, sem ter que lidar com a carência de gestos, pequenos ou grandes, demorados ou não, mas irrevogavelmente significativos.

Do gesto errado à omissão, são dois extremos. Um passo comum e iminente ao erro, embalado por uma consciência sempre ignorante ao pavor da expressão. É a falta de conhecimento que traga a tentativa, frustrando todo e qualquer esclarecimento, extinguindo futuros gestos, secando todos os poços. No caminho olho uma pedra e já não vejo nada além dela, respiro imersa nessas tristezas que não interessam aos jornais. Me engravido do que falar e aborto logo em seguida, todo esse ceticismo poético me aborrece demais.

Fico no aguardo de aprender a viver e quanto mais vivo, menos sei de tudo. Quero imenso aquele amor pra mitigar meu cansaço, mas ando tão seca pra me derramar assim, por cima das vontades dos outros. Se eu mesma estou alheia, sem sequer saber levar minha palavra pra passear do lado de fora das frases, como então esperar que alguém consiga depositar suas esperas em mim?

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Minhas anotações bagunçadas de saudade.






Dobrando papéis 

     
                                           pra poupar minhas unhas, de tão roídas que estão. 

             Só. 


                   Pra driblar os dias em que não te vejo. 


                          Encontrar distração e não morrer de amor, daqui pro final da semana. 


  Daqui pros teus olhos é um pulo. 

                                                
                                                Nos teus braços. 

   Quase um absurdo, 


                                     como dissertar sobre um tiro no escuro que deu certo demais. 


                                                                                                                                      Proximidade distante. 



     Já que meu coração é tua casa 

                                                           
                                                    e o que nos separa são dois quarteirões. 



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Das coisas que deveria dizer, antes de te ver ir embora.





Talvez eu não queira me acomodar, mas como agir diante do conforto da minha solidão macia, de menina com voz de silêncio abafado, com bafo de mofo que repele os outros até quando não quer? Peço licença, pois se me inclino é pra alcançar as palavras que ainda me são esquivas. Na danação da minha vida, escapam escorregadias através dos dedos. Se me falta papel, me sobram as entraves ao tentar dizer. Até movimento os músculos orofaciais, mas o gelado da língua afundada na boca não favorece a tentativa. Naufragam todas as minhas falas, quando teus olhos, teimosos que são, ancoram nos meus.

De que outra forma evidenciaria, que meu coração sedado pelas tuas chegadas, vai te gritando rouco por todos os cantos da cidade, enquanto resiste roto pelas tuas esperas? Me aguarda o amor, e junto com ele o pavor da vulnerabilidade. Mas se nenhuma espera é vã, então devo mesmo é guardar o pavor pra mais tarde, pra uma outra ocasionalidade, ao invés de atirá-lo violento pra dentro dos teus braços, espatifando futuros abraços, como quem não quer amor nenhum. Sou toda ao contrário, por isso tenho procurado contornar os meus avessos, como quem ensaia na frente do espelho, um apelo mudo pra não te fazer desistir.

Tantos anos esperando a boca, que me tirasse o gosto de palavra que se perdeu. Só quem prova sabe, quão trabalhoso é tirar o azedo de papilas gustativas habituadas à ilusão. Depois de todo esse esforço, agora que (re)encontro teu gosto, ainda me faço de tola, pra depois soltar reclamações sobre o pavor em te perder. Contraditória, a mesma mente que trabalha na tentativa de ser concisa, ativa no corpo o modo de saudade de arder junto ao teu.

Ainda é cedo, encosto a cabeça no teu seio esquerdo. No que permaneço com o nariz sob teu queixo, te sinto respirar como quem gostaria de inalar todo o ar dos teus pulmões. Passado o descontentamento, transponho meus olhos das brigas tão comuns, experimentando uma felicidade maciça, talvez masoquista, de quem admite o gozo no deletério do amor. Acreditando que posso tentar te ensinar a procurar minhas vontades escondidas, por detrás dessas constantes mudanças de humor.




domingo, 30 de setembro de 2012

Tua carta.






Enquanto te escrevo já não me escapo, não existe nenhum espaço onde eu possa caber, tamanha a vergonha iminente de te fazer infeliz. Quem me dera  rasgar as palavras suspensas latejando em ti, usando caneta, papel e cola. Grudar uma aquarela nos intervalos de nós dois, pra em seguida retirar o cinza das palavras inflamadas. Por isso sigo encostada no papel, pra não correr o risco de nos tropeçar falando. Sem modos de te pedir favores, ainda me atrevo a nos arredar com calma pro amor passar, carregando todo o peso da memória e levando nosso cansaço pra passear, só mais essa vez.


Antes, talvez, existisse o susto. A insistência alva dessa tua imagem pregada, na parede negra dos meus olhos fechados.  Sim, digo ''antes'' porque o agora é outro, os anos bem que podem ser de ouro, amor, se a gente quiser. Só mais dois dedos cruzados de paciência, nessa nossa mistura, e podemos nos danar a mexer. Pra sair do fundo desses meus deslizes de final de mês, do meu pecado-desmaiado-de-te-machucar-sem-querer.


O mundo contido dessa cidade não me desce, nada aqui me percorre ou invade. É um ovo, quente e hostil. Estamos todos fritos. Me viro de novo. Onde quer que lance meus olhos, eles acabam em cima dos teus. Naquele eterno cabo de guerra entre te procurar ou não, posso concluir que jamais se trata de ''qual devo escolher''. Não tenho escolha alguma. Desde que te conheci, deixei meu brio na porta e entrei.


Não paro pra pensar porque durmo e acordo já pensando, o difícil mesmo é conseguir desviar o fluxo do mar de pensamentos. Pra evitar o afogamento, fiz pequenos barcos de papel. Distâncias reais me atormentam, em igual proporção que palavras mal proferidas me ferem, mesmo saídas de mim. Por isso  (re)li meus escritos e tudo o que foi dito, repetidas vezes. Com os olhos salgados de esperar os teus.


E por falar nisso, vovó me disse mais cedo que de salgado basta o suor, a gente tem que ir se adoçando como pode e quem não pode se sacode, porque Deus perdoa quem erra por amor.



































Tem um grito desvelado de saudade no meio dos meus erros,
será que dá pra escutar daí?



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Palavras (des)dobradas.








E o que me importa encostar na palavra vizinha, se o esbarro não for proposital?
E se for, amor?
Quanto será que nos custa o atrevimento de esbarrar?
Pra quem mesmo que importa?
Será um (des)caminho soltar esse sim no nosso quintal?

O que será que tem de errado nos meus olhos de cansaço,
por nunca terem deixado, de caçar palavra no castanho lar dos teus?

Os anos atropelaram expectativas passadas,
e o nosso amor escapou na contramão.
São e salvo, desencadeando uma série de (des)encontros, até aqui.
Teus olhos desencardem as máculas espalhadas na minha sala-de-estar-só.

Haviam crostas de poeira e exaustão, da minha mesa até a cabeceira,
antes da proximidade das tuas mãos.
Antes da tua respiração se confundir com a minha,
e conseguir aspirar velhos medos entocados.

Chegou há tanto tempo, ainda vivo e escancarado esse nosso amor.
Ficou sem pressa, sem ter pavor, de conhecer esses úmidos porões trancados.
Fazendo questão de encontrar as chaves perdidas na bagunça que sou eu.

A vontade que a gente calça é suficiente pra andar além da calçada,
sem receio de sair pisando nos dias mais sem graças.
Esticar os dois cantos da boca que quer ficar grudada na tua,
sem se importar com a ponta da língua cortante de quem só sabe falar mal.
E continuo a dizer baixinho, no pé do teu ouvido,
tudo quanto sei que gostas de ouvir.
Só um aviso aos que se recolhem dentro de si:
O amor é mais do que se acomodar por auto proteção.

Acho que preciso de um quarteirão inteiro de paredes brancas,
pra rabiscar todos os versos que guardei pra nós.
Tenho colecionado notas mentais.
Tudo tem pulsado, desde a hora que acordo até a hora em que vou dormir.
Não deve ser nada grave, mas toma conta de mim.

Parece até jura um por um dos teus modos,
desde o teu andar até teus olhos.
O desequilíbrio que me causa sustentar meu próprio corpo,
só pra te ter como desculpa, te fazer me segurar por mim.

Eles dizem que jurar é pecado,
mas continuo jurando por tudo o que for mais sagrado.
Ainda caço qualquer palavra que caiba entre as peles,
faço relicário na ponta do abismo de existir.
O perecível vai embalar cada letra no comprido do tempo,
com pretensão de nos guardar.
Perpetuar o espaço cuidado da minha vida na tua.
Sem obrigação de ter sentindo.
Sem amarras porque voa.
Sendo mais continuidade e menos fim.

sábado, 11 de agosto de 2012

Na rua da saudade não existe contramão.





Tô naqueles dias de revirar arquivos infinitivamente pessoais.
Remexendo o misto de saudade e amor,
Pra ver se consigo dissolver a falta que fica no fundo.
Essa falta que acho ser de pedra.

(Re)ver sorrisos divididos, caretas, 
birras e choros de felicidade ou não.
Tudo assim, congelado.
Mas nunca frio.
Pra que ainda possa nos esquentar por dentro, só de lembrar.
Caber no tempo.
Até porque ainda tem muito amor pra colocar lá dentro.
E a gente sabe que amor nunca pode ser demais.

Nos intervalos apressados entre um ano e outro,
o salto do consolo é a certeza de que a gente ainda se tem.
E ainda dizem que a única certeza que se tem na vida é a morte.
Se for mesmo assim, tenho duas.
Sou sortuda, sempre achei.

Guardo nossa presença com gosto de sorvete,
numa caixa de cartas e flores azuis.
Onde me trouxeram pelúcias e um gato.
Naquele aniversário, 
acho que nunca fui tão feliz.

Continuo cabeça dura de coração mole.
Mania de guardar detalhes.
Basta ler pra saber.
A diferença é que agora aprendi a assumir.
Encontrei nossas memórias acordadas num mundo que não cabe em caixas. 
E saí correndo pra escrever aqui.

Estamos sempre a um telefonema de distância.
Mensagens no meio da madrugada.
Visitas cada vez mais raras,
Encontros em que sempre tem um que vai faltar.
Palavras soltas giram ao redor da minha boca.
Fico tonta com tanta coisa que tinha pra contar.
E só um pensamento me ocorre.
O que seria o espaço entre dois pontos,
pra quem se cruza por acaso no meio da rua,
como quem nunca deixou de se ver todas as manhãs?