domingo, 20 de março de 2011

Sobre verdades expelidas e feridas alcoolizadas no papel.



Quase imperceptível.
Um pingo de gente no meio da calçada, fazendo hora ,rabiscando qualquer coisa num papel. Rasgando madrugada de novo, na espera de quem nunca veio chegar.
Cidade toda vazia, a cabeça explodindo, pessoas cheirando a desinteresse , copos cheios, cigarros acesos e almas pequenas demais. Era o que ela via por detrás da tela , por detrás do vidro , por detrás de si.
Tão perdida, a tresloucada sufocava com a corda bamba em que andou toda a vida. Em alguma hora seria engraçado imaginar o fim.
E eram tantas perguntas sem resposta alguma, eram palavras carregadas de ironia, série de desistências, um rio de frustrações. ”Pessoas de merda , is all the same shit”, estampado em letras garrafais a três porradas na parede do cérebro.
Era início de quarta, e queria poupar o que ainda restava de sanidade pro resto da semana, se contasse duas gotas no fundo era muito. E sabia.
Passava por aquele mesmo processo quando chegava em casa, metia o dedo na goela e vomitava tudo no papel.Todas aquelas letras caindo tão ácidas na beirada, formando fila, querendo sair. 
Ia vomitando verdades na direção contrária.
Uns liam três vezes ou mais tentando entender, sempre assim. 
Escrevia por não encontrar modo melhor de amenizar o enjôo que viver às vezes causava, como se fosse necessário emprestar o peito de alguém,já que a dor era muita pra caber só no seu.
Pimenta ardida nos olhos alheios, letras que saem quentes, verdades vomitadas, chame como quiser.
O que ela tinha era uma ferida aberta, daquelas que quase um mundo tem mas não faz questão de ver pra não ter que sentir. 
Já não tratava, não usava vista grossa ou pomada.
Vez ou outra passava a mão em cima, cutucava. Jogava álcool pra gritar e arder. Latejando e se sentindo viva.

23 comentários:

  1. Oi...

    Texto forte

    "...O que ela tinha era uma ferida aberta, daquelas que quase um mundo tem mas não faz questão de ver pra não ter que sentir..."

    Um abraço e uma maravilhosa segunda

    Lavonia

    http://laladocruel.blogspot.com

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  2. "O que ela tinha era uma ferida aberta, daquelas que quase um mundo tem mas não faz questão de ver pra não ter que sentir"

    muito parecido comigo isso!
    LINDO, <3

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  3. É preferível sentir dor à não sentir nada.

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  4. Aqui em Minas eu chamaria este texto de uma boa dose de cachaça, quente, forte que desce rasgando. Deglute quem consegue. Adorei o texto e as verdades gotejando de vômitos escatológicos, nossas sensações orgânicas indispensáveis.

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  5. Meus parabéns pelo texto. Muito bom mesmo!! Tão peculiar quanto expressas ser, ainda que este não tenha sido sobre você! Mas as palavras parecem ter sido guardadas para este texto...

    xD

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  6. Como a Lianah já escrevinhou, tbm gostei em demasia do texto acima.

    Como "Palavras vomitadas no papel" foi forte e autentico.

    Boa semana. Beijos.

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  7. Isso é vida e me fez lembrar um trecho do livro que to lendo, a Pequena Abelha: Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser o nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: "Eu sobrevivi."

    Beijos!

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  8. E quando se tem essa ferida, sempre aparece gente com seus conselhos de merda e receitas milagrosas de superação que nunca dão certo. Nessas horas ainda prefiro olhar pra pessoa, oferecer um cigarro, perguntar se quer ir beber e digo: "Te entendo"

    Valeu pela visita! Gostei muito daqui, voltarei mais vezes e espero que apareça mais vezes por lá!

    Beijos.

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  9. Vou te dizer uma coisa: O que escrevemos ninguém precisa muito entender além de nós mesmos. Afinal, pra quem mais escrevemos além do outro ser que existe dentro de nós.

    Leio duas, três, quatro, cinco, sete vezes se for necessário pra ver tanta beleza nas palavras que utiliza.
    Parabéns sempre pelos lindos escritos.
    Um cheiro.

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  10. Lendo você eu lembrei de mim mesma. Me lembrei o quanto escrever verdades me fazia viva. E hoje estou num estado de sonolência profunda.
    Seu texto bateu em mim como um soco no meu estômago.
    Verdades, verdades, verdades ... preciso encarara-las.rs
    Obrigada!!!

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  11. aqui é tudo tao lindo começar pela essa imagem do blog!! amo mesmo!! voltei haha tava sumidinha

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  12. Gostei. Também gosto de tudo aqui.

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  13. Oi
    Tudo bem ?
    Seu blog é maravilhoso!
    adorei aqui!
    te sigo ok?
    Bjoos!

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  14. Antes a dor que o nada, sim?
    Me identifiquei muito.

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  15. A dor também é uma prova irrefutável de que estamos vivos.

    A primavera sempre chega.

    T.

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  16. Minha queridíssima, caríssima!!

    Estar aqui é me deixar levar por palavras encantadas, não vejo saída senão me deixar contaminar. o melhor de tudo é que a vida é esse eterno contágio, não é??

    Obrigado mesmo por todo o carinho lá no pensamento, as coisas da qual escrevo não tenho domínio, escapam pela ponta da caneta, ou dos dedos.

    Aqui é o meu lugar de repouso, venho para silenciar meus anseios da magrugada.
    aqui sim, poesia, sentimento transformados em verbo. verso, reverso.
    um beijo enorme
    Mell

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  17. Entendo isto. Fazer doer é melhor que não sentir nada...


    beijos

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  18. “Escrevia por não encontrar modo melhor de amenizar o enjôo que viver às vezes causava, como se fosse necessário emprestar o peito de alguém,já que a dor era muita pra caber só no seu.”

    Nossa,
    Esse texto realmente me tocou. Ele se encaixa perfeitamente comigo, como me sinto às vezes.

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  19. Pena, diferentemente eu queria só cicatrizar. Nem que se parar parar a dor, eu não sentisse mais nada.

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  20. Gi, seus textos sempre me deixam sentimental, sei lá, sempre me identifico, sei que é bem clichê falar isso e queria poder fazer um comentário mais construtivo, mas sou péssima nisso.
    Beijos ;*

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  21. Gi, são suas as ilustracões? São lindas!

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  22. Uma narradora ácida, um texto ácido. Uma persona introspectiva e daquelas que não têm medo de olhar. Que palavras nem valem tanto a pena assim, deixa elas comerem a si mesmas na parte de dentro. Não adianta. Algo vai ter que soltar. Um pequeno trecho de um filme ou o segundo antes de parar de se apoiar no parapeito da janela. Todo resto é breu.

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